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sexta-feira, 25 de abril de 2008

Unza Unza Time


A tempestade descasca as árvores com espocadas numinosas de luz. Primeiro os frutos, aos borbotões, depois os galhos e finalmente as próprias árvores quedam. O vento rebate a chuva que se quebra com estardalhaço nas varandas dos prédios, os bueiros estouram, os postes apagam, o comércio fecha, o trânsito pára. A cidade capitula, cheia de si.
Talvez seja o fim do mundo chegando, como disse minha traficante, tomando café e comendo pamonha. Talvez sim, eu respondi, tomando conhaque e fumando maconha. "Nossas pernas nunca estão abertas o suficiente na hora do bacu". Eu vi a hora ter que tirar a roupa para acalmar a vizinhança na janela. Dessa vez por capricho dos homens tivemos que ficar descalços, e eu imagino que depois eles se esconderam em algum lugar e se masturbaram fumando nossa baga e pensando em nossos pés, bizarro. Tinha o com cara de porquinho, tinha o mimadinho e tinha até o intelectual, tinha o bonzinho e o mauzinho, tudo muito surreal: Uó. Sai do carro, mão na cabeça, é bom colaborar, apaga esse cigarro, que falta de respeito, vem ver eu te revistar. Sabia que eu podia te levar pra delegacia...
O que falou comigo tinha os olhos de china e as bochechas rosadas, parecia um garoto que a mãe acabara de pôr talquinho, e tinha o careca, muito feliz em seu papel de malvado nervosão. Nenhum deles sabia argumentar e respondiam às nossas perguntas mudando de assunto, mas mesmo assim foi o bacu mais esclarecedor que já tive o prazer de tomar. Meus agradecimentos sinceros ao soldado porquinho do mal e ao soldado bochechinhas rosadas.
Voltando ao fim do mundo, Auxiliadora acha que vai piorar, disse-me para acertar as contas com a lei o quanto antes, vejam só a ironia, pois ainda vão chegar dragões com chifres, pragas, filho matando pai matando filha matando mãe estuprando filho roubando pai vendendo filha, cavaleiros galáticos e um banho de sangue. Eu acho que o mundo já acabou, mas como não desanimo de uma boa festa, contino muito bem sentado em minha cadeira, fumando meu cigarro, bebendo meu conhaque e olhando pela janela, aguardando o dragão chifrudo e seus cavaleiros voadores...