terça-feira, 25 de março de 2008

Aconteceu em ZZz City


Z. ouviu um som da rua, orgânico demais pra ser mecânico e metálico demais pra ser orgânico, e pensou que podia ser o tempo se rasgando lá fora. Ele estava certo. As fendas temporais são fenômenos ordinários no mundo de hoje e só não estampam as páginas dos jornais porque o que a turma curte mesmo é sangue. Z. virou pro lado, adormeceu e sonhou que era um elefante e vivia na África, em um circo, acorrentada a uma bola de ferro, daí, como nos sonhos é-tu-do-má-gi-co, de repente a bola de ferro era um balão vermelho que saiu voando e assim salvou Z. de uma matilha de ratos, pois no sonho de Z. coletivo de rato é matilha e só passa de meia em meia hora, vêm em ondas como o mar e chocam-se na orla de Z. com uma violência suicida tão insana que acabam rachando o espaço. Krack. Z. achou estranho um elefante pendurado num balão. Pop. O balão estourou, lá vem Z. em queda livre com toda a porra, um dumbo trágico, o vento zunindo em suas imensas orelhas de abano um som orgânico demais pra ser mecânico, metálico demais pra ser orgânico...
Z. acordou com seu cão lhe lambendo, como naqueles filmes B. E como naqueles filmes B havia um brilho estranho nos olhos de Fait Divers, o cão de Z. Mas um cão vampiro é o menor dos problemas de Z. : Havia sangue por toda parte. Z. olhou bem em volta, fechou os olhos, desejou profundamente que aquilo tudo fosse um sonho ruim, abriu os olhos novamente, fechou, abriu, por fim gritou, mas só havia silêncio, lançou-se então contra as paredes, nada, mais sangue. Seria cômico não fosse trágico.
Em 12 de Julho de 2008, dois dias após o ocorrido, após beber duas garrafas de vinho tinto, ter comido meia fatia de queijo maasdam e fumado um baseado ao som de ZZ Top, e ainda sem conseguir dormir, ou acordar, Z. chegou à triste conclusão que enlouquecera. Ele não ficou exatamente surpreso com sua descoberta, isso era algo em que já vinha matutando há algum tempo: Enlouquecer era a única conclusão lógica que se podia chegar em sua situação.
Foi o jeito, pensava Z., foi o jeito enlouquecer, pensava Z., olhando fixamente para uma das quinas de seu cubículo feliz. Moralmente, eticamente falando, não havia mais nada a fazer. Era, inclusive, a escolha mais digna, a decisão mais sábia.
-Então, é isso, estou louco. Hmm. O que acha, mamãe? Mamãe??
Z. vai até a geladeira, abre o congelador e dá uma conferida.


domingo, 23 de março de 2008

Felizes Juntos


-E pra provar que falo sério vou queimar muito dinheiro em notas de dez, em praça pública.
A massa humana deu uma sacolejada, em pouco tempo apareceu alguém com a gasolina, ele tinha fósforos, saiu pra sacar a grana, a multidão o acompanhou.
Foi até o banco, sacou, trocou, saiu todo feliz. Apareceu a TV. Perguntaram ao povo o que era aquilo. -Alguém vai queimar dinheiro. -Por quê? -Pra provar que não vale nada. -É louco? -Só pode.
Não teve paciência de esperar a praça chegar e mesmo andando o mais rápido que podia começou a queimar as notas de dez ainda no caminho.
-Com licença, como o senhor se chama? Por que faz isso? O homem seguia queimando, deu-se mesmo ao luxo de acender um cigarro com duas de dez flamejantes. Alguém saiu do meio da turba, arrancou-lhe o maço e saiu correndo. O homem disparou atrás, o povo atrás do homem. Encontraram-no mais à frente, já com o dinheiro na mão e os pés no ladrão, chutando-o. -A gasolina! Vai ser aqui mesmo. Chegou a polícia. O homem sacou uma arma. Começou a correria. A polícia disparou. Gente corria pra longe do homem, pra se salvar, gente corria pra cima do homem, pra salvar o dinheiro, a polícia correu pra cima da gente, começou o quebra-quebra. O homem não sobreviveu. O dinheiro passa bem.

D. Maria viu pela TV Sr. Zé no meio da confusão. Naquela noite ele chegou em casa tarde, manco, cheirando a gasolina e feliz, estranhamente feliz.
-Mulher, você não vai acreditar, eu estava na praça jogando xadrez quando chegou esse cara, pediu uma informação, pediu um cigarro, pediu um cartão telefônico, saiu, voltou, devolveu o cartão, agradeceu e começou uma conversa de que dinheiro não vale nada, e que queria gasolina pra queimar dinheiro. Ele até que tinha uns argumentos coerentes, mas ele queria qieimar dinheiro, entende? E era muito pidão. Mas daí que parece que falava sério... -Ah, parece? -É. Ele dizia que dinheiro é um pedaço de papel que a gente acredita que pode comprar tudo e por isso vale tanto. Ele disse que havia ganho muito, mas que pra isso perdeu tudo. E pra provar que estava falando sério ia queimar muito dinheiro em notas de dez ali, na praça. Daí em diante foi uma loucura só. -Eu vi, passou na TV. Você sabia que o dinheiro era roubado?
A campainha tocou, o telefone também. D. Maria foi atender a porta, Sr. Zé começou suar frio.
-Alô? -Papai? -Sim? -D. Maria? Detetive Marins. -Alô. -Papai? -Pois não? -Seu marido está? -Papai? -José?

No hospital, Sr. Zé soube que infartara. Medicado, ao lado da esposa e do filho, começou aos poucos a relaxar, mas não muito: "Ainda falta o tal Marins."
-Muito bem, Sr. Zé, vou direto ao ponto, onde está o dinheiro? -Que dinheiro? -Nós sabemos que o Sr. estava lá, sua esposa confirmou. -Ela também disse onde está o dinheiro? -O Sr. a acusa de cúmplice? -Eu a acuso de ignorante, mas isso não é da sua conta. -Então não vai colaborar? -Já colaborei muito, agora aposentei. -Não saia da cidade. -Não pretendia.

Em casa, após a janta, a sós com o filho, Sr. Zé começou uma conversa esquisita e curta. -Preciso que pegue algo pra mim, mas não quero que faça perguntas. -E o que ganho com isso, papai?
Zé não respondeu. Não conseguiu recuperar o dinheiro. Nunca conseguiu sequer dar uma conferida, e começou a desconfiar de sua memória, se todo aquele dinheiro existiu mesmo... Piorou, por fim morreu, pobre, meio louco, estranhamente feliz.


sexta-feira, 21 de março de 2008

K7 Records


ouça no volume máximo.

One for the money


two for the show. 01101011001010100100010110010110101100110010101001110101010110101
0100010101010101000101100101000101100101100011000011001100110101010101010101010
101110100110011001011001101010101010010101010010101110101010101011010010110010010
010101101010101010101010101010101011100101101GOGOGO!00001100100100100101101010
00000010110011010110010011011001101101101011101110011010101010101000101001011001
001000001000101001010001010110101101010111001001010001000010101010001010Amém.

"We got a problem, Houston"



um pequeno passo para o homem...

... E você não está mais no mesmo lugar.


quarta-feira, 19 de março de 2008

Crônica de Ana


um passo por vez, cada vez a última, até se chegar ao começo - Era esta a filosofia de Ana, para quem a vida corre para trás, na contramão da história. Ana está grávida de sua mãe, por quem seu pai se apaixonará perdidamente, da união dos dois, um casal, seus avós. A história repete-se, sistemas dentro de sistemas, engrenagens circulares de mote inverso, descambando no mar, origem de tudo, onde Ana está agora, contemplando seu futuro.
Mirando o horizonte Ana persegue com a vista uma jangada: podia ser um transatlântico, a esta distância é indiferente, tanto um como centenas, pensa, e toca o ventre. Ana não conheceu seus pais, não conhece seu país.
Aos seis órfã, aos doze estrangeira, aos dezoito uma menina igual a todas as outras, aos vinte e quatro professora, aos trinta mãe. Aos sessenta Ana estará de volta ao mar, talvez observando os barcos voltarem, suas redes cheias de peixes.
Tanto um como cem. A jangada agora é só um ponto indo de boca aberta na direção do horizonte, sua linha é tênue, tensiona, o sol é poente, o ponto some: o peixe foi fisgado, Ana também.

No dia 12 de Maio de 1968 nasceu João, sob o signo de touro, às 22:00 hrs, pesava 2 kg na ocasião, e isso é boa parte de tudo que se sabe dele. O resto são histórias de pescador, algumas tão estranhas ou simplesmente estúpidas que nem vale a pena contar. De certo só que nasceu prematuro e que morreu afogado, enroscado em uma rede de pesca, deixando esposa e filhos, João e Ana, essa ainda na barriga da mãe, que mal enterrou o defunto sentiu-se em apuros, viu-se obrigada a tomar uma decisão drástica, rezou, chorou, por fim resignou-se e escolheu criar apenas o menino, mais velho, braços fortes. Deixou a menina sob a tutela de um casal de gringos que a chamaram Ana, em homenagem à mãe, uma senhora realmente carente, viúva, doente, pobre João.

Para João Félix dinheiro não era sinônimo de felicidade. Muito menos antônimo. João adorava dinheiro e tudo que vinha junto, mais ainda o que vinha junto e por isso gastava mais do que podia, mas não se importava com as dívidas, elas eram só "coisas que vinham junto". Logo cedo pegou gosto pelo jogo, e como dava-se melhor com as cartas que com os peixes, trocou a rede pelo baralho, mas nunca foi de menosprezar a pesca, no mar como no poker, "caiu na rede é peixe". Foi no jogo que conheceu Ana, por quem apaixonou-se perdidamente. Em comum tinham só o presente, Ana não sabia de seu passado, João dali em diante não quis mais saber do seu: Ganhou muito dinheiro, perdeu tudo, de seus vinte anos de jogatina não comenta um dia sequer.
João voltou à pesca, aí vem uma boa sequência, ele arma o jogo, lança a rede, o mar contra ataca, dois ases na manga, um royal flash na água, enrosca-se na rede, fim de jogo para João.

Da praia Ana observa o ponto sumir no horizonte, sente uma fisgada, pensa na vida, em redes, cartas, engrenagens... "Se for menino se chamará João".

terça-feira, 18 de março de 2008

Foda-se Records





what´s up, charlie?


por aqui tudo uma merda, joe. o céu é azul, a grama verde. há uma noite estrelada, uma lua brilhante, um dia, e bem no meio dele um sol provedor de vida. àgua fresca, mulheres lindas e ainda estranhas ao silicone, pão e circo, fumo e vinho, boa música. como vê, a única coisa de que não posso me queixar é a falta de motivos para reclamar.
meu corpo é são, minh´alma também. eu tenho alguém que me ama e também amo alguém. essa minha vida é uma desgraça só.
a terra é fértil, no inverno chuva, na primavera flores... os pássaros estão cantando lá fora anunciando um novo dia: putaquepariu, tudo outra vez.


sábado, 15 de março de 2008

O Trítono com a Tônica


Senhora,
A flor que te daria, sinto informar, nasceu pretérita do quando dá-la queria, e isso era hoje, e já vai hoje em tarde... E o tempo urge e ele, que dobra crianças em velhos e noites em dias, diz que é meu por direito o presente que renuncias e ainda em minhas mãos pende.

Bem-ou-mal-que-me-queira, vou despetalando-lhe os laços... E quando enfim o desnudo, descubro, estúpido, que dentro desta caixa, onde os tolos não vêem nada - e quando muito um botão - há na verdade mapas e nestes mapas rotas que me sussurram "persiga-me" e eu nem as pergunto aonde vão: Ponho meu barco à deriva do rio que elas indicam e, nave sem rota em ida sem volta, vou...
E ao fim da viagem, entendo - e eis que nisso consiste o presente - que minha nau me levou, tão semente, à promessa de uma outra... Flor!

Senhora, ironia, em algum lugar riem de mim. Aqui, uma blue note passa a página, outra história.

domingo, 9 de março de 2008

Sirva-se


"A humanidade anda tão digital, tão substancialmente virtual, que tudo que é analógico, nossa própria carne, virou fetiche."

Super Mário Bros

segunda-feira, 3 de março de 2008

O Maior Show da Terra

Respeitável público! Com vocês, Zunira, a mulher vampira; Monga, a mulher gorila e Amélia, a mulher de verdade barbada. As 7 maravilhas de Marte, notícias do átomo, o livro que se lê, a roda da fortuna. A incrível estória da menina que entrou pelo buraco do coelho e saiu pelo espelho do quarto. As botas do gato e o beijo do sapo.Os segredos alquímicos de Melquíades e as barbas de molho do profeta Jeremias, a baleia de Ahab,o narguilé do saci turco,a sala de espelhos, o monumento em braile, o kinderovo da serpente da cabeça da Medusa planificada e mais, muito mais. Entrem, entrem, já vai começar o espetáculo. Esquindum esquindô, dente de cobra, asa de morcego, pé de pato mangalô três vezes seis dezoito por cento de umidade relativa do ar, pista livre, céu de brigadeiro, nuvens de marshmelow, senhoras e senhores, renomeiem o arquivo como .rar e... Abracadabra:

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

hello, crazy people


Os saudosos são estátuas de sal que enfeitam o jardim do além. Lá o futuro nos acena, vem em nossa direção. Hoje vira antigamente quando nos estende a mão.
- muito prazer, sou o seu objetivo.
E feitas as apresentações, adeus. E adiante eu sigo.
Venham comigo, amigos.
Em frente toda vida. Em frente toda a vida segue, sempre.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

"cada vez gosto mais de menos gente"

Viva Santa Ignorância, padroeira dos perdidos, bússola dos que não sabem aonde querem ir mas vão assim mesmo para ter do que reclamar depois: O milagre de roer a própria nuca.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

XVIII


Ela teve um sonho estranho em meio à noite. Sonhou que acordava e a noite lá fora, diáfana, sorria sua lua crescente em brancos dentes de luz. Ela então ergueu-se e flutuou até o banheiro e lá olhando-se no espelho entendeu que a lua é um buraco por onde passam os reflexos do que há do outro lado, imagens de estranhos lugares dourados por uma estrela só: Ela noite, viu-se dia. E não acreditando no que via, tocou-se, sentiu a pele fria, e novamente acordou, mas do outro lado dessa porta. E novamente dentro do banheiro, diante do espelho. Percebeu a ironia. Quando sorriu já estava morta.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Os Caras da Banda


Os caras da banda são estranhos. Eles vêm descendo a ladeira pra subir a rua e eles não te olham, sequer te notam. Eles não estão nem aí pra o que tu pensa deles e eles vão continuar tocando o foda-se. Sentem seus rabos, fechem a boca e abram os olhos. Os caras da banda não têm muitos amigos e acham melhor assim, pois quando desafinam não há vaias. Eles cuspiram em papai e enterraram mamãe, eles não têm titio, eles não têm pistolão, eles não votam, eles não curtem mendigar, nem tapinhas nas costas, nem elogiar a decoração. Os caras da banda vão se dar mal, evidentemente. Mas eles preferem assim. E você, faça-lhes o favor de esquecê-los.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

"Quando sorriu já estava morta"


Ele chama-se Severino, deve ter uns setenta e cinco quilos em um metro e oitenta e mais de trinta anos. A última vez que foi visto usava uma calça jeans e uma camiseta do Joy Division e bebia conhaque no Gate´s Pub, na 405 Sul. Severino é farmacêutico, está desempregado e sentia-se indisposto para com as propostas de trabalho escravocratas, quando não simplesmente ridículas, que recebeu até agora, ou ao menos até seu desaparecimento. Entrevistas de emprego, aliás, é um capítulo curioso na vida de Severino.
Ele lembra de sua primeira, quando sentou-se e a porta fechou por trás dele seu futuro patrão olhou-o e disparou: Não sei se você sabe, mas farmacêutico não trabalha.
Severino é uma pessoa razoável, ao menos quando está sóbrio, e ele estava, então, passadas as considerações iniciais, restou-lhe a pergunta: Quanto, então?
Daí em diante foi mais do mesmo, variações do mesmo tema. Às vezes com pitadas de auto ajuda ou frases de efeito, quando o pretenso chefe era mais ou menos boçal. Severino certamente não é o profissional brilhante e obstinado que um chefe tensiona, Severino parte fácil. Sacou? E fácil parte para a ignorância, não a fácil, a bruta, esta também, sempre de maneira desastrosa, mas o mais frequente é ele, quando lhe convém, em instantes, simplesmente perder o contato com a realidade. Severino toca o foda-se, como ele gostava de dizer, e de uma maneira que lhe é bem peculiar. Aonde vai ele nessas horas é o que tentamos descobrir, então, se você tem uma informação que possa nos levar ao paradeiro de Severino, por favor deixe seu recado após o bip.

Bip. Olá, eu me chamo Biu e acho que sei de quem vocês estão a falar, este tal Zvirino. Stava eu a beber meu conhaque quando me chega este gaijo, bêbdo pra qralho, com uma converza viada de que ia fazer a mágka do dizaparecimento. Bem, ele já stava para evaporar mesmo, percebes? Bah. Eu ligo novmente dpoish.
Bip. Oi. Sou eu de novo. Desculpa a demora, eu ando trabalhando muito, sem tempo a perder com picuinhas. Estou aqui porque aqui é mais sossegado, você saberia se conseguisse chegar aqui. Eu cheguei andando. Um ou outro psicotrópico, também, confesso, afinal sou farmacêutico. Mas não se preocupem, sou um profissional, vou poupá-los de explicações técnicas morosas. Estou aqui e estou bem ocupado, é tudo que vocês precisam saber. Críticas e preocupações com esta minha pessoa, em cash, conta 20011-9, ag. 2495-6.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

todocarnavaltemseufim?


Intermináveis Sessions. E o que há por trás da próxima carreira eu não sei, mas vou descobrir. Intermináveis Sessions. Dias sem dormir. O santo forte, a carne fraca, o osso duro de roer roído até sumir. Corte fundo à faca cega - ei, baby, sopra aqui, please - e toca o barco: O que há por trás da próxima é a que vem a seguir.

(e fodam-se os loosersmanos)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

À minha ex chefe, que abria as pernas enquanto me dava ordens


E se as mesmas unhas vermelhas que te apontaram um rumo espremeram teu sumo, marcaram teu rosto, ajoelha, lambe e cheira, abana o rabo, rói todo esse osso, e findo o ato, acende a luz, abre os olhos, mede o gozo e sente o asco enquanto degusta a verdade derradeira de que, em se tratando de bucetas, meu caro, algumas não passam de buracos insossos.

Com carinho, Biu.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Serve Juquinhas?


idéias ocorrem por aí e quando você tem uma delas ou ignora ou tenta fixá-la, e se é isso que faz pode ser que instigue um outro a fixá-la também, o que é do interesse da idéia, que vai-se formando, e há idéias que convêm que nasçam, outras talvez não, algumas são prematuras - idéia é como gente, tem em todo lugar, de todo tipo, para todo gosto e utilidade. eu tive uma idéia, a sirva/se records, e resolvi pô-la para tocar, ao contrário, à demo.
eu s/a, nós iltda. a zyrva/serecordz é uma empresa undergrund, imoral e sem clientes, tem por norte a falência, que já vem por sul também. um sucesso já de saída, adeus.

(sacou o trocadalho? a sirva-se records conta com você.)

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

yeah pussy blues (de volta à rua do fogo)


Descendo a rua da aurora, atravessando a rua do comércio, à esquerda, há a trav. sta. rita, que vai dar na rua sta. rita, que vai dar na rua da praia. Duas esquinas antes está a rua do fogo, também chamada da meretriz, um trocadilho infame com sua paralela sacra, a da matriz, também uma homenagem à senhora M., a cafetina do lugar. A rua do fogo, apesar do nome conveniente às atividades que por lá se estalaram, chama-se assim devido a um incêndio há muitos anos atrás, que começou por lá e foi até a igreja de sta. rita, mas não entrou, e teve como única vítima o padre da cidade.
Naquele tempo só havia no lugar a igreja de sta rita, e a rua do fogo era uma estrada cortando um gramado onde aos poucos foi surgindo um sobrado onde aos poucos foi juntando gente, em sua maioria párias. O prefeito não gostava de párias, mas eles votavam por qualquer trocado. A população não gostava de párias, mas eles se vendiam por qualquer trocado. O padre Z. não gostava de párias, e foi deixando isso cada vez mais claro em seus sermões. A população se indignava, o prefeito se comprometia, mas isso tudo só durava até a comunhão. Então, um belo dia, depois de ler sobre gomorra e discursar sobre pompéia, o padre Z. simplesmente cansou de esperar pelo bom senso de todos e terminada a missa foi pessoalmente à rua do sobrado, no segundo andar do qual morava uma viúva e suas duas filhas, a morena e a ruiva. Pária é tudo igual, esses servem. Penso nisso nesses termos e sorrio enquanto desço a aurora...
Apesar de sua raiva e do espanto da viúva eles começaram a se entender. A viúva ofereceu-lhe água, apontou-lhe um banco, contou como chegara ali, como era difícil sua vida, de seu desejo de saber mais das coisas de deus, e de como preocupava-se com a educação das filhas, principalmente da mais jovem, a ruiva, que passava a maior parte do dia e boa parte da noite na rua, e nesse ponto começou a chorar. O padre voltou-se para a mais jovem, para a mais velha, para a viúva, passou algum tempo calado, olhando para uma vela sobre a mesa, e então, perguntou à viúva se podia falar com sua filha em particular. E logo em seguida arrependeu-se, pois a casa era só aquele quarto, e o resto da família foi saindo calada quase que imediatamente, sobrando subitamente apenas o padre e a garota.
Qual sua idade, minha filha? - Quis saber o padre. Uns dezessete - Foi a resposta da garota. Uma mentira.
O que tanto você faz na rua o dia inteiro? - Quis saber o padre.
A ruiva estava sentada em uma cadeira ao lado de uma mesa em frente a um armário, tinha cabelos longos, olhos claros e corpo de mulher. Ela olhou para frente, para além do padre, depois à sua direita, depois levantou a perna esquerda e apoiou o pé na cadeira, depois, começou balançar os joelhos, dobrou uma perna sob a outra, apoiou ambos os pés no assento, uma de suas mãos segurava uma coxa, a outra fazia cachos, seu olhar passeou pelo teto, depois por ela mesma, e, finalmente, quando tornou a encarar o padre, este estava de joelhos, perplexo, rendido. E então, algum vesúvio, e o holocausto, não se sabe como. A garota sai correndo, a mãe entra gritando, logo volta, mas não afasta-se, até ser retirada pelos vizinhos, que mal têm tempo de salvar suas própias coisas e a si mesmos, nesta ordem. Em pouco tempo a rua do sobrado virou a rua do fogo, a rua dos párias, apesar desses terem a partir daí espalhado-se como brasas pela cidade, em um incêndio latente que sempre volta ao foco para celebrar seu estopim.
Findo a aurora, atravesso a rua do comércio, dobro à esquerda na travessa, desço pela sta. rita em direção à praia, páro duas esquinas antes, cá estou novamente. Entro na casa, dirijo-me ao balcão, peço algo, olho ao redor, lá está a velha M. em um canto, observando o lugar com olhos faiscantes.

sábado, 19 de janeiro de 2008

baque seco


Enquanto eu caía não vi minha vida passar, só a calçada estava lá, de ruas abertas me esperando. Cheguei ao meu fim pontualmente às doze. Mesmo desmaiado estou plenamente consciente de minha triste situação. Eu poderia me erguer, acho que conseguiria se tentasse, mas acho melhor não, talvez o melhor agora fosse morrer.
Infelizmente isso não sou eu quem decido e passados alguns minutos, ou horas, desperto. Mas não me ergo, estou decidido a não fazer nada por mim, nada que me tire dessa. Gostaria mesmo de afundar na calçada, ser tragado pelos esgotos e despejado no mar com o resto da sujeira, mas também já estou ficando cansado de esperar. Toda minha vida eu esperei, eu esperei a minha vez pacientemente, eu planejei cada detalhe minunciosamente, estudei as possibilidades, consultei os astros, calculei as chances, tropeçei por fim, caí, e não desejo me levantar mais pois tudo está perdido, bem sei. Agora mesmo os guardas já deram falta, não precisam nem contar dois mais dois para entenderem a coisa toda de tão simples que ela é: um corpo, uma maleta cheia de grana e uma mulher. Tudo muito clichê. E eu que sempre evitei os filmes de caubói e as loiras, por causa de uma estou metido em um.
Ela é o diabo. Penso nela enquanto morro...
Então, consciente, me ergo. Espero um pouco. Nada acontece. Percebo que não basta morrer, não é simples assim, e decidido a voltar a cair e dessa vez de uma vez por todas, volto ao bar. Quando o circo está armado os personagens assumem seus papéis, então, haverá um corpo nessa maldita história, o meu.
No bar conto alto a alguém que há um corpo na calçada em frente, todos ouvem, todos fingem que não. Absolutamente desconcertado, peço mais uma dose, ela não vem. Alguém se aproxima, patas e chifres, tudo bem clichê. Ele caminha devagar, ele carrega uma maleta. Apesar da aparência repugnante é um rosto amigo, familiar até. Não precisamos de apresentação, naturalmente. Ele me pede uma ficha, sai, faz uma ligação, retorna, larga sobre a mesa a maleta, na jukebox uma velha canção...

And I followed her to the station
with a suitcase in my hand
And I followed her to the station
with a suitcase in my hand
Well, it's hard to tell, it's hard to tell
when all your love's in vain
All my love's in vain

Ouço as sirenes, elas vêm em minha direção.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Rua Reta


Cruzando esquinas e seguindo em frente pela rua reta, meio indiferentes, meio tristes, meio contentes, ruminando um pouco em um café ou outro e, renovados, deixados sobre a mesa alguns trocados magnéticos, lépidos, seguimos em frente pela rua reta, não muita coisa em mente, o sol brilhando nos ângulos lassos do concreto armado por onde escorre a brisa que passando nos leva pela paisagem cinza, calçadas incertas.
Seguindo em frente pela rua reta - caleidoscópio de faróis, canteiro de gerúndios, sinfonia de buzinas - as bocas de lobo uivam por ali onde era aquele bar e agora é esse pátio - Um dia será um prédio, você me diz e ri e me dá a mão e, Rintrahs, as britadeiras roncam longe seus lacônicos monossílabos tônicos em staccato lerdo pelo ar carregado e um som vindo do passado ressoa em mim, e em mim, morna, a rua inteira transforma-se uma canção que - love supreme a love supreme a love supreme... Entoa o eterno mantra que continuamente nos traspassa e é tudo que importa, percebo, e então, páro, desapareço. Fim.

domingo, 16 de dezembro de 2007

In Bob we trust.


Há essas vinte e tantas letras e eu não sei bem o que fazer com elas agora que o tempo parou. Eu já me debati tanto... Já estamos às claras, a festa acabou, ficamos até seu final, o seu, não o meu, amigo, não foi por falta de aviso, afinal, tudo já foi dito, e creio que não resta muito a fazer agora, que o tempo parou.
Há essas vinte e tantas letras e elas são o ar que respiro, mas não pagam aluguel, nem sequer desconfiam que uma estupidez dessas exista e continue existindo mesmo agora, que o tempo parou.

Firme. Rente. Amoral. Ouvindo mais do que falando, e vendo mais do que mostrando. Rumo aos milhões de segundos mágicos piscantes, ou diretinho para o inferno. Orever. Yo.
Em carne viva, curtindo a brisa, como Adão, lá parado, pelado, olhando para o alto, esperando a chave da casa vermelha cair do céu aos meus pés de barro e pensando, pensando...
E se a chave não abre a porta como na canção, e se deus não existir, e se eu for demitido, e se eu me demitir, e se eu mudar de cidade, de mulher, de carro, de sexo, de profissão. E só o que dá por ora é espreitar pelo buraco da fechadura:

"Observando o céu com sua luneta mágica o cientista percebeu uma estrela que ao menos para ele era nova e deu-lhe seu nome. Quando calculou a idade de sua descoberta ocorreu-lhe que talvez tenha sido ele a receber o nome dela, e depois concluiu que orever, tanto faz, quem espiona se mostra".

Então, quando viu pelo buraco da fechadura que do outro lado estava ele vendo que do outro lado estava ele com um olho aqui e o outro lá cuidando do de cá, pirou. Yo.

Essas vinte tantas letras, eu não sei o que fazer com elas. Estamos todos aqui agora, que o tempo parou, tudo já foi dito, estamos às claras e o mundo acabou e ainda assim elas despregam de seus batentes se encadeiam e seguem em frente, tão belas, e já me debati tanto, eu não sei o que fazer com elas.

E subtamente, toc - toc, toc - toc, do outro lado, e isso meio que desentope meus sentidos e percebo os sons da rua, os motores e os sinos e tem até um passarinho, e todos esses sons lá fora enquanto os móveis me olham mudos aqui dentro. Na rua, os postes, os muros, as buzinas me dão boa noite, um bar acena para mim do outro lado, fosforescente, lá haverá um café ou uma cerveja, um jornal, e enfiada entre mortes, estupros, corrupção e um monte de mentiras, uma boa notícia. Vamos à ela.

Robert Zimmerman tinha essa habilidade nata em fuçar o lixo social, por assim dizer. Morte no eixão, roubo no Masp, milagre do crescimento, Beatrix, 18 aninhos, sol em sagitário e lua na casa do caralho; havia um padrão ali, e Bob iria sacá-lo, de um jeito ou de outro. Então, enquanto atravessava a rua com suas botas de caubói e sua gaitinha fon-fon indo em direção às good news e a uma cerveja gelada, decididamente, viu que na contramão dele vinha, estão prontos? Ele mesmo. Nem aí Bob diz hey, Bob, à Bob, e continua em direção aos milhões de segundos mágicos piscantes, ou diretinho para o inferno, e nisso, o bar, a cerveja e as notícias. O mundo acabou. O tempo parou. Estamos às claras. As mesmas notícias de sempre passavam por ele nas entrelinhas das colunas, artigos, crônicas e ele não quer mais saber do que já sabe, ele quer saber onde tudo isso vai dar, em pizza, é o que eles dizem, mas Bob não crê em nada que escuta, aliás, ele crê, em tudo, o que dá no mesmo, não é? Para Bob tanto faz a CPMF e a invasão alienígena, mesmíssima merda. Mas, Língua de fogo mata sete cães no Gama e Músico fica recluso após acidente de moto, há algo aí, rebolando no vento...
Mais uma cerveja, mais uma ficha, mais uma música. Mais uma olhada no jornal. A conta. E aí, Bob, What´s up, What´s up, Bob? Bob fica perguntando-se enquanto atravessa a rua distraído, absorto. Ele percebe que há algo acontecendo agora mesmo, na sua frente, mas, o quê? É como olhar-se pelo buraco da fechadura, aquela toca de coelhos brancos onde está-se sempre atrasado porque o tempo parou, você vê-se fazendo o que você faria e quando dá-se conta, pronto, está feito.
Bob ainda não sabia qual é a boa e decidiu não voltar para casa ainda, não voltar para casa enquanto não descobrisse, não voltar para casa nunca mais, quando descobriu que ali não era sua casa, e afinal decidiu que não há um lar para Bob, melhor comprar uma moto, uma Harley.

Na porta de casa, de volta do bar, achei que seria uma boa idéia uma saideira, talvez achar alguém com quem possa conversar. Fiquei ali parado um instante, observando o movimento, era véspera de natal e havia muita gente indo e vindo e todos falavam com todos e a rua estava enfeitada, piscando, toda meretriz, então, sem pensar, por impulso, bati à minha própria porta, como se quisesse me acordar lá dentro, aqui dentro, e voltei para a rua. Haverá ao menos uma boa festa em todo este maldito lugar, longe, onde não chegue o espírito de natal, e com todos os demônios eu estarei nela. Eu não tenho nada, não tenho nada a perder, então, aposto alto, aposto tudo em mim mesmo. Ouro, copas, paus e espadas, cinquenta e seis cartas, vinte e dois arcanos, vinte e tantas letras, sete notas, e para sorte ou azar, ainda estão rolando os dados, e para sorte ou azar, parece que rolarão eternamente.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

cama-de-gatos


E vão todos à merda. E eles foram. Levantaram-se um a um de minha mesa e um a um foram se acomodar na mesa dos incomodados e é isso aí, os incomodados que se mudem. Eu acomodado estava acomodado fiquei, remoendo o chiclete da raiva, nham, hum, que macio meu ódio, maleável, e com que elegância desliza por dentro de mim, esquentando meu sangue. Não eu não vou desperdiçá-lo com a fila do banco, não, nem com a política. Muita calma nessa hora.
Você, que não saiu quando teve oportunidade, antes de meus dentes trincarem, não vou desperdiçá-lo com você também.
Céus, onde há algo ou alguém digno de meu ódio?
Pago a conta, cumprimento todos os ausentes, dou boa noite, dou gorjeta, vou para casa e dou-me um tiro, dois? Dez não resolveriam.
Eu gostaria de estuprá-los todos, eu gostaria de ser polícia pra poder matar numa boa, eu gostaria de ser filho de juiz, pra poder matar e estuprar numa boa.
Na impossibilidade de odiar de verdade, amo de mentira.
Isso acaba trazendo-os de volta à minha mesa, que ironia, e isso os faz dignos do que realmente sinto, que sorte a minha. Dou graças ao diabo por essa divina providência e sigo amaldiçoando indistintamente. E venham todos à merda comigo, amigos, sejam vocês os astros desse meu vácuo, ardam nas minhas cinzas. Deixem-me ser o nada que os sustenta, o zero que os aguarda no fim das contas, o buraco no fim da estrada. A cama dos acomodados. Venham, é por aqui.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

ácido fincado


ele usa terno de linho branco, ele surgiu de um buraco no chão, ele me disse que está tudo bem agora e que tudo só pode dar certo, que eu não me preocupasse com nada, que andasse pelas ruas sossegado, observando os detalhes que me apontava com seu indicador. ele falava macio ao contar as notícias de amanhã ainda hoje. o que o faz achar que preciso disso? por que ele não volta por onde veio?

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

" gostas que te lambam, baby? "


...banho-te à gato, pois. beijando teus olhos, dois, chupando teus dedos... seis? e essa cauda, mô, estava aqui antes? (muito inconsequente essa minha tara por mutantes).

terça-feira, 20 de novembro de 2007

novesfora, dez


Vamos.
O futuro não nos reserva nada que já não esteja agora mesmo nos esperando na esquina onde estamos indo, indo, indo, destino.
Vamos. E quanto maior a estrada mais alto o grito:
Rasguem-se as calçadas onde passo, guia-me esse alvo onde fito.

"calculismo e sangue frio"


Quando o cd de Chat Baker entrou na terceira rodada consecutiva, enquanto fixava F em oito com um dos doze parafusos G, if you could see me now, dizia Baker, a chave de fenda derrapou e, não por isso nem pela dor que sentiu no indicador, mas nesse momento, ele viu. Uma imensa fenda abriu-se em sua testa e lá em baixo pelo chão daquele cânion corriam crianças. Sim, ele viu. A, três, e com ele G soltaram-se do conjunto. Vinte vinte eme dê efe, sorriu o relógio de parede, cansado de repetir todo dia três e quinze àquela mesma hora. B, D, F e H ficaram suspensos no ar, ricochetearam pelas paredes enquanto um e nove passeavam pelo teto. – You can see me now, gritou Baker, enjoy it, man, endossou o ventilador, e outros fatos ainda ocorreram, o tempo todo ocorrem, não cabe aqui cataloga-los, o que importa mesmo é que ele viu. Sim, senhoras e senhores, ele viu... Mas não percebeu. F foi fixado em oito por G como dita o parágrafo dois da página três do manual e você não pode mais me ver. E sobre um ficou a tv, sob quatro o som. On

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

meu nome é igual



cheguei lá, fui o primeiro, logo chegou mais um, dois conhaques, mais dois, e de repente já éramos dez bêbados, onze, chegaram todos, fechamos a conta e saímos de lá para mais longe, muito mais longe, onde não havia eletricidade, cadeiras, camas, mas quem se importa, as paredes estavam lá, e agora éramos sei lá quantos já, todos gritando ao mesmo tempo, durante várias horas, ininterruptamente, só meu amigo Mr. Hippie Sujo que de vez em quando parava porque entuou que aquilo dava um samba, não o culpo, quando chegar em casa certamente vou tentar escrever isso, mas isso de chegar em casa ainda vai demorar muito, agora tenho mais com o que me ocupar, respirar, por exemplo, já que essa gargalhada me tirou todo o fôlego e não consigo parar de rir, então fujo, tomo fôlego, volto, tudo de novo, eu imploro para que eles parem com aquela coreografia mas eles não me ouvem, os lunáticos, as lágrimas começam a escorrer como um rio, a barriga dói, os vizinhos estão batendo lá embaixo, só eu os ouço, mas finjo que não é comigo, aí começam os hinos, à bandeira, à pátria, ao soldado, dou um gole na cerveja quente e sinto um gosto salgado, bebi minhas lágrimas, engoli meu choro, ha ha ha, ha ha ha ha ha, então meio a contragosto comento que acho que ouvi alguém batendo lá embaixo.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

02-11


E eis também que o tempo passa e hoje é dia dos mortos. Foi dito anteriormente que o Sr. R ia de encontro à sala de espelhos. Se cada vela que arde uma alma e cada vivo uma chama que esvaece, ei-la.
Aqui, no lugar chamado Cruzeiro, aonde por costume neste dia os vivos vêm lembrar seus mortos e ajudá-los a encontrar seu caminho por meio da luz que arde em cada um desses pavios que são tantos, a terra ajuda ao céu lembrar-se de como criar a noite estrelada, afinal o que implode aqui certamente explode por lá, e com essa analogia refiro-me à vida, antes apelidada chama, que presa no pavio pífio da carne, derrete em lágrimas o círio dos anos, levando-nos de volta para a noite de onde viemos um dia. Um dia como hoje. Feliz aniversário Maria.