terça-feira, 8 de abril de 2008

Doze Doses


Jeff e Judy são meus amigos imaginários, eu sempre os encontro em algum bar, nenhum especial, mas sempre precisamente no início da sexta dose e eles são pontuais. Hoje, excepcionalmente, Judy está meia hora atrasada. Estamos no bar, eu e Jeff, e Judy ainda não chegou. Chegou. Johnny está morto, nos informa Judy, e vira minha dose e pede outra. Sangue, horrível, balbucia Judy, e desmaia, e vomita. Ela sempre foi muito exibida. Nós continuamos bebendo, até ela sumir. Sumiu. Mais uma.
- O que acha, Jeff?
- Eu acho que não existo, Joe.
- E faz tempo?
- Que eu não existo?
- Não, que você existe. Porque você existe.
- Não, eu não existo, Joe.
- Negar não vai fazer você sumir, imbecil. Talvez beber, veja o que aconteceu a Judy...
- É, a Judy sumiu. Se não me engano antes falou que Johnny morreu de morte horrível.
- Acho que sim. Mais uma pelo Johnny.
- Viva o johnny.
- E aí, faz tempo?
- É que não lembro de ontem e não tenho nada pra fazer amanhã.
- Fiquemos por aqui mesmo, então.
- Que horas são?
- É cedo. Mais uma?
- A conta.
- Covarde. Garçom!
- Sim?
- Mais uma. Dupla. Caubói. Obrigado.
- Você não está exagerando, amigo?
- Você é real?
- Sim.
- Ambos?
- Essa é a última.
- Qual o problema com meu dinheiro?
- Com quem você está? Vai como pra casa?
- Voando. Glub. Ok. Glub. A Saideira. Dupla.
- Não.
- O que é isso, um motim? Aqui o dinheiro, traga minha dose, meu amigo morreu.

...Lá vai ele, hehe. O otário pensa que existe... Depois de dez doses nada mais é real.
A dose vem, acho, eu bebo, aí me apoio no balcão e me ergo, cambaleio até a próxima, até a porta, digo, mas o chão some e eu caio no vazio. Continuem sem mim.

Um comentário:

Roberta AR disse...

vá sem mim, mas fique com brian eno, que esse disco é ótimo!